Sem computador e casa cheia: Covid agrava desigualdades no ensino em RP

Reportagem: Cristiano Pavini

O novo coronavírus impôs quarentena e aulas virtuais para todos os estudantes no estado de São Paulo, agravando as desigualdades no aprendizado. Enquanto escolas particulares ampliaram serviços digitais já existentes, alunos ribeirão-pretanos da rede pública sofrem sem computador e internet dentro de casa – que está, muitas vezes, superlotada. 

Análise feita pelo Farolete a partir dos microdados do Enem de 2018 (Exame Nacional do Ensino Médio), com informações dos 14.687 moradores de Ribeirão Preto inscritos na prova, revela o tamanho do abismo tecnológico.

Entre os que estudam ou estudaram em escola públicas no Ensino Médio, 32% declararam não possuir computador. Já no grupo dos que frequentaram apenas a rede particular de ensino, sem necessidade de bolsa integral para custear a mensalidade, o percentual cai para apenas 5%.


O levantamento abrange todos os inscritos, incluindo aqueles que já concluíram o Ensino Médio há alguns anos.

Se forem considerados apenas os 6,8 mil candidatos que ainda estavam no colegial em 2018, a diferença se mantém: 34% dos alunos da rede pública não têm computador, contra 6% da rede particular sem bolsa.

“Quando se pressupõe que todos terão as condições que, na verdade, são privilégio de alguns (rendimentos garantidos, alimentação adequada, casa confortável, conexão de qualidade à internet, conforto no lar, tempo livre para estudar, entre outros fatores necessários para a realização de atividades remotas de ensino), contribui-se para o aumento das desigualdades escolares”, afirma Débora Piotto,  docente do programa de Pós-Graduação em Educação da USP de Ribeirão Preto.

No gráfico interativo abaixo é possível acompanhar a divisão em cada tipo de ensino. Ao todo, 3.299 inscritos no Enem de 2018 não tinham computadores. Oito em cada dez deles estudam ou estudaram apenas em escolas públicas.


Os dados apontam, também, a questão racial associada à condição socioeconômica. Do total de pretos inscritos, incluindo rede pública e privada, 37% não tinham computador. Entre os pardos, a proporção é de 32%. Já entre os declarados brancos apenas 17% não tinham o equipamento.


Em outubro de 2019, Farolete publicou reportagem sobre o abismo racial existente entre escolas públicas e privadas em Ribeirão Preto.


Diferença nas escolas

Com base nos microdados, Farolete analisou o perfil de cada escola, considerando apenas os alunos que estavam no terceiro ano do Ensino Médio.

A unidade com mais inscritos no Enem 2018 foi o COC do Centro: 249, sendo que apenas 15 (6%) não tinham computadores.

Em seguida, em número de inscritos, vem a escola estadual Otoniel Mota: 246, sendo que 100 (41%) declararam não possuir computador.

Considerando todas as escolas de ensino regular com ao menos 50 inscritos no Enem do ano retrasado, o maior abismo tecnológico fica entre a escola particular Faap e a estadual Jardim Diva Tarlá de Carvalho.

Enquanto na FAAP apenas 1 dos 114 alunos (0,9%) que prestaram o Enem não tinha computador, no Diva Tarlá eram 32 dos 69 inscritos (46%).


Casa lotada

Além da ausência de condições tecnológicas adequadas, os alunos da rede pública enfrentam um problema que a maioria dos que estão na rede particular desconhece: casas superlotadas, ainda mais no período da pandemia, em que a quarentena impôs portas fechadas.

Farolete analisou 6,8 mil alunos que prestaram o Enem em 2018 e ainda cursavam o Ensino Médio naquele ano.

Na rede pública, 28% deles declararam viver em casas com 5 ou mais pessoas. Já na rede particular, entre os que não precisam de bolsa, a proporção cai pela metade: 14%.

A desigualdade fica ainda mais gritante quando associada à estrutura da residência.

Por exemplo: 401 (13%) alunos da rede pública disseram que sua casa tem 5 ou mais moradores, mas apenas dois quartos para dormir. E pior: 193 estudantes ( 6,5%) apontaram que na residência há um único dormitório, compartilhado com os pais e irmãos.

Oito alunos cadastraram que moram em oito pessoas, mas com apenas dois quartos. Cinco disseram que a residência não tem dormitório.

Já na rede particular, entre os alunos sem bolsa, a situação é bem diferente: apenas 1,1% deles dividia dois quartos para 5 ou mais pessoas. E 18% de todos os inscritos apontaram que a casa tinha quatro dormitórios ou mais.


Prejuízos

Levantamento feito pela Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo), a partir de enquete eletrônica com os professores, mostra que no período de 21 a 29 de maio apenas 22,5% dos estudantes da rede estadual participaram de atividades de EAD (Ensino a Distância).

Questionada pelo Farolete, a Secretaria de Estado da Educação não informou qual era a taxa de participação em EAD dos alunos do Ensino Médio especificamente em Ribeirão Preto.

A pasta afirmou que “o Governo de São Paulo foi pioneiro no país para implementar ensino à distância em larga escala” no contexto da Covid-19. Explicou que foram disponibilizados dois aplicativos para celular, com 2,8 milhões de downloads e 1,6 milhão de acessos em todo o estado, e que o uso não consome franquia de internet dos alunos. Afirmou, ainda, que as aulas também estão sendo televisionadas.

Dados do Enem 2018 mostram que 12% dos inscritos na rede pública não possuem internet. Já entre aqueles da rede particular, sem necessidade de bolsa de estudos, o percentual cai para 0,97%.

Segundo Débora Piotto, a pandemia prejudicou o processo de ensino-aprendizagem, pois a relação direta com o professor foi substituída pela mediação de um dispositivo tecnológico.

“Com isso, perdem-se importantes dimensões da relação pessoal, como a linguagem não verbal, que possui um papel na comunicação, e participa, portanto, do processo de  ensino-aprendizagem”, diz, citando também que a situação promove um “sobre-esforço da parte de alunos e professores para que possam se comunicar”, gerando “cansaço, irritabilidade, o desestímulo, a desatenção, entre outros fatores”.

Mas os prejuízos recaem em maior medida sobre os alunos de baixa renda.

“A pandemia explicitou e acentuou as imensas desigualdades sociais historicamente já existentes no Brasil, que estão relacionadas também a desigualdades de acesso à produção cultural humana, como a leitura e a escrita”, aponta Débora.  

Ela diz que “considerar que grande parte das famílias brasileiras terá acesso à rede mundial de computadores, de forma adequada a permitir o acompanhamento de aulas virtuais, é negar a realidade”.

Segundo Debora, “as atividades escolares remotas, da forma como temos visto ser implementadas, principalmente por gestores de redes públicas de ensino, certamente têm caminhado na contramão da democratização da educação”.

O desempenho no Enem de 2018, antes da pandemia, já evidenciava a desigualdade no aprendizado. Os estudantes de Ribeirão Preto da rede pública tiveram nota média de 493 na redação. Já os da rede particular de 688 (40% a mais).


Enem

O Enem foi colocado no centro do debate educacional durante a Covid-19. A prova, que é a principal porta de entrada para o Ensino Superior, foi adiada para data indefinida. Ela estava prevista para novembro.

Um dos argumentos é, justamente, que alunos de menor poder aquisitivo terão desvantagem ainda maior na quarentena com as aulas online.

O Governo Federal relutou em alterar a data, mas cedeu após pressão do Congresso Nacional e da sociedade.

“Essa relutância do Governo Federal em adiar a realização do ENEM apenas pode ser entendida dentro da necropolítica (ou política de morte) ou da estratégia de criar polêmicas para desviar a atenção de assuntos econômicos. Ou, também, como forma de enfraquecer esse que é o maior processo seletivo do país; ou, ainda, como resultado da conjugação de todos esses fatores”, diz Debora Piotto.


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